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terça-feira, 19 de março de 2013

Por Que O Wing Chun Não Tem Resultados Expressivos No Ringue?

Artigo publicado pelo Mestre Marcos Abreu em seu blog Applied Wing Chun Salvador.

PRÓLOGO

Durante estes últimos anos como escritor, o ponto central da minha carreira tem sido explicar ao público brasileiro qual a proposta real do Wing Chun dentro do mundo das artes marciais, em particular do ponto de vista técnico. No Brasil e no resto do mundo, tendo como ponto de partida a carreira meteórica de Bruce Lee no cinema, há mais ou menos quarenta anos que o Wing Chun vem sendo vendido por seus mestres e professores como o "melhor estilo" de arte marcial. Entretanto, no começo dos anos 90, a ascensão da família Gracie em escala mundial com os torneios de MMA, e as derrotas humilhantes que alguns lutadores de Wing Chun sofreram nestas competições fizeram rapidamente com que os poucos profissionais que realmente ganham dinheiro empresarialmente com a arte tivessem de encontrar outros caminhos para divulgar seu produto. Assim sendo, o Wing Chun passou a ser vendido com a alcunha de arte marcial "realista", que apesar de não ter grandes resultados expressados no ringue, seja de MMA ou torneios de contato total, teria totais condições de defender seu praticante numa briga de rua, onde não há regras ou limites de tempo, modo de lutar etc.







Colocado de outra forma, podemos dizer que ficou cômodo demais para nós. Superestimamos nossas habilidades, falamos bobagens, e para ficarmos bem bastou mudarmos o discurso para que os problemas relacionados à nossa prática fossem varridos para baixo do tapete. De fato, o Wing Chun ficou conhecido na China por seu sucesso nas brigas de rua, em especial na Hong Kong dos anos sessenta quando alguns alunos de Yip Man conseguiram fazer frente a praticantes do estilo Choy Li Fut, que dominavam com folga estes embates. Mas foram outros tempos e o modo de lutar mudou no mundo inteiro. De lá pra cá o Choy Lee Fut cresceu tanto nas competições quando como sistema de defesa pessoal, enquanto o Wing Chun hoje é visto como uma piada no mundo das artes marciais de competição. Diante disso, o cara que realmente ama Wing Chun se pergunta: Por que nossa arte não vai bem nas competições? E uma vez que não, será que ela realmente teria utilidade num conflito que, embora provavelmente menos especializado, é potencialmente mortal como uma luta sem regras? Há alguma validade real na prática? Posso confiar no que faço? Por incrível que pareça a resposta é mais óbvia do que se imagina, e se o praticante de wing chun ou leigo lerem com atenção este artigo, não terão dúvidas sobre este assunto.

Vejamos a sequência de fotos acima. Nela, escolhi um tipo de movimento natural de defesa comum tanto ao Wing Chun quanto ao boxe ocidental, mas vamos analisar como a coisa seria feita primeiro numa luta especializada em ringue como boxe que também já pratiquei de forma amadora (cheguei a ser cogitado para um futuro hipotético na seleção brasileira, mas parei pelo caminho e hoje me arrependo) , mas cujos movimentos também servem para a situação de "rua". Na foto 1, o atacante esboça um gesto de ataque em que o defensor, de branco, também boxeur, faz um pequeno movimento com o tronco para trás (foto 2) apenas o suficiente para deixar morrer o golpe do atacante, para que volte com uma sequência de 1, 2 (Jab de esquerda e direto de direta). Mais ou menos como um "joão bobo". Como as fotos foram feitas de movimentos naturais de combate sombra, a sequência fica bem espontânea, natural (o modelo não aceitou ser atingido, repare na esquiva e no olhar dele, olho de tigre, o sifu imaginando se deveria voltar com cruzado, rs). Nesta primeira sequência, a única preocupação do boxeador é estar longe apenas o suficiente para colocar sua sequência, a defesa é a mais natural possível, e só um elemento de variação que tem a ver com os seis golpes (Jab, direto, ganho, uppercut e dois cruzados) já conhecidos de braços que possam ocorrer entre os dois competidores. Agora, vamos ver abaixo a resposta do Wing Chun a um ataque parecido, usando a mesma inclinação para trás como defesa principal:






Na primeira foto, o defensor, lutador de Wing Chun, que numa situação rea.. ops, irrestrita (porque uma luta do UFC não seria "real"?) supondo que não quisesse ou esperasse o conflito seria atacado provavelmente de surpresa, e sem dados para saber exatamente o que fazer, inclina seu tronco para trás, numa defesa muito semelhante à da primeira sequência. A defesa Gip Sao significa "receber", mas não tem a função específica de defender o golpe, mas cobrir a área onde provavelmente o golpe poderá passar. Agora note, ainda na primeira foto, que a mão direita do defensor faz um movimento descendente passando por toda a região abdominal. Ou seja, a mão esquerda cobre a área alta enquanto a direita, a baixa. Assim, naquela área escolhida para ser coberta, a defesa principal, assim como no caso do Boxe, foi a esquiva, mas no caso do Wing Chun um movimento a mais foi feito, pois numa situação real, você tem muito mais fatores para observar. Supondo, por exemplo, que o primeiro golpe tivesse sido ao invés de um jab de esquerda, uma estocada de objeto perfurante na barriga, como uma faca ou uma chave de fenda, o praticante de Wing Chun poderia até ter a sua mão cortada, mas certamente teria mais chance de evitar um golpe potencialmente letal. Da mesma forma, uma paulada na cabeça teria seu afeito atenuado com defesa esquivante de cima. Para o lutador de wing chun, não importa onde será o golpe, ele deve cobrir toda a área. O maior erro dos praticantes de Wing Chun é querer "ver" os golpes e isso definitivamente não funciona. Na segunda foto, o contra-ataque é um soco típico do Wing Chun com o corpo de lado, pouco conhecido na maior parte das escolas chamado Din Choi (Soco de Batalha) e cuja estrutura e origem provável no templo Shaolin foi discutida neste blog no ano de 2011 no texto sobre Luk Dim Boon Kwan. Durante e execução deste soco o braço esquerdo do defensor é violentamente puxado para trás com o objetivo de potencializar o giro e fazer com que o braço da frente chicotei o alvo. Há um modo um pouco mais defensivo, fechado, de mostrar essa mesma técnica, a mão esquerda ficaria na guarda mas fiz questão de mostrar como isso seria feito pelo iniciante, ou seja, com o golpe no seu máximo de potência explosiva. Na última foto, um exemplo ainda mais contundente do que poderia ter sido o primeiro movimento do lutador de Wing Chun que procura defender e atacar ao mesmo tempo sempre que possível. Ele executa Tiu Gerk "Perna que se levanta" pegando a mesma energia que o levará para trás para fazer um forte pisão no chão que servirá de pivô para transferir a força de todo o corpo para o peito de seu pé direito mandado às partes baixas do adversário. Muitos profissionais de Wing Chun gostam de falar de golpes baixos no wing chun, mas não sabem como a própria estrutura de funcionamento do sistema contribui tecnicamente para isso. Afinal, qualquer idiota sabe dar um chute baixo e, do mesmo modo, qualquer um que tenha dedos pode tentar levá-los aos olhos de alguém na hora do desespero. Não se trata do que se pode fazer, mas como o ritmo e a estrutura para a qual a arte foi criada/adaptada guia o processo. Quanto mais o agressor entra com toda a sua força, de um modo forte e pouco pensado, melhor ficará para o lutador de Wing Chun.

EPÍLOGO

Em qual das duas situações o praticante de Wing Chun que leu este artigo acha que há uma melhor eficácia do ponto de vista energético? E técnico? Quantos golpes sequenciais podem ser melhor colocados nas duas situações? Não há um resposta pronta, há que se refletir um pouco para fixar, mas aposto que este artigo lhe dá uma luz nova sobre um assunto velho, lhe deixou mais tranquilo. Como um sujeito que praticou das duas lutas e treinou diariamente as duas situações e muitas outras semelhantes, posso dizer que o jeito do boxe tem uma defesa mais simples e prática e a possibilidade de ter o corpo mais livre para golpear em sequência, pois os golpes - seis somente- e os limites técnicos estão definidos. A reação do lutador de Wing Chun exposto ao conflito irrestrito exige que ele tenha uma solução geral para problemas potencialmente mortais (você na maioria das vezes vai sair apenas com um olho roxo, um combate de ringue com alguém preparado para você, na sua idade, no seu peso e preparo físico pode ser muito pior) e inesperados na ação, mas que tem um custo funcional adicional. O lutador de boxe sem noção de cobertura com os membros terá dificuldades amplas caso ele seja exigido fora de sua área, enquanto o de Wing Chun terá uma limitação mediana em todos os aspectos, mas será como um carro que anda bem em qualquer terreno. Em nenhum dos dois casos se ganha algo sem se perder se perder outra coisa em troca. A ação do lutador de Wing Chun deve ser mais ampla e sofisticada na defesa e o ataque, uma vez que devemos supor que nosso adversário tem algum tipo de vantagem sobre nós, deve ser simples, porém decisivo. Analisando deste modo, não do há que se envergonhar de sua arte. Ela é o que é não precisa ser o que não é, a menos que, ironicamente, uma necessidade REAL se configure. O Wing Chun nunca vai ser boxe, nem precisa ser. Entretanto, a linguagem da luta irrestrita de "rua" está mudando com as competições, e a internet democratizou o acesso ao conhecimento. Se ficarmos apenas nos escondendo em nossa zona de conforto porque alguém no passado criou algo que foi útil há trezentos anos, ficaremos para trás.

Principais técnicas mostradas no artigo: Jip Sao, Ding Choi, Tiu Gerk

Fonte: http://appliedwingchunsalvador.blogspot.com.br/2013/03/por-que-o-wing-chun-nao-tem-resultados.html?spref=fb